terça-feira, 23 de setembro de 2014

Fanfic "Agora e Sempre" - Capítulo 11

Autora: Gaby
Censura: +16
Capítulos:15
Postagens: Dias alternados
Shipper: Edward e Bella
Sinopse: Em 1815 órfã e sozinha, a jovem americana Isabella Swan atravessou o vastooceano com destino à Inglaterra. Determinada a assumir a herança perdida havia tanto tempo, surpreendeu-se diante da suntuosa propriedade de seu primo distante, o mal-afamado lorde Edward Cullen. Disputado pelas mais belas mulheres da alta sociedade, solteiras ou casadas, Edward era um mistério para ela. Confusa com sua postura arrogante, porém atraída por seu imenso poder de sedução , ela deslumbrou poderosas lembranças nos profundos olhos verdes de Edward...

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Capítulo 11
Isabella abriu os olhos e fixou-os na janela, por onde podia avistar o céu cinzento. Ainda atordoada pelo sono, não reconheceu as cortinas de tons rosa e dourado. Sentia-se preguiçosa, como se não houvesse dormido, mas, mesmo assim, não tinha desejo específico de voltar a dormir, ou de permanecer acordada. Seus pensamentos distantes flutuavam, perdidos, até que, de repente, sua mente começou a clarear.
Estava casada! Realmente casada. Era esposa de Edward.
Conteve um grito de protesto diante da constatação e se sentou na cama, ao se lembrar com clareza de tudo o que acontecera na noite anterior. Agora sabia o que a srta. Flossie tentara adverti-la. Não era de admirar que nenhuma mulher demonstrasse desejo de falar a respeito! Começou a sair da cama, reagindo ao impulso de fugir. Porém, tratou de se controlar. Ajeitou os travesseiros e voltou a se acomodar. Os detalhes humilhantes de sua noite de núpcias voltaram a povoar sua mente, enquanto ela se lembrava da maneira rude como Edward se despira diante de seus olhos. Estremeceu ao se lembrar da crueldade com que ele zombara dela, mencionado Jacob, para então, usá-la. Edward a usara como se ela fosse um animal, totalmente desprovido de sentimentos, que não merecesse a menor ternura ou consideração.

Uma lágrima solitária escapou de seus olhos quando ela pensou na noite que viria a seguir, e na próxima, e em todas as noites a sua frente, até Edward conseguir plantar sua semente em seu ventre. Quantas vezes seriam necessárias? Uma dúzia? Duas dúzias? Mais? Ah, não por favor! Ela não suportaria muitas mais.
Secou a lágrima com a mão, furiosa consigo mesma por sucumbir ao medo e à fraqueza. Na noite anterior, Edward deixara claro que pretendia continuar fazendo aquela coisa horrível com ela, que era a sua parte no acordo. Agora que sabia o que, exatamente, o acordo envolvia, Isabella queria desfazê-lo imediatamente!
Atirou longe as cobertas e saiu da cama quente e macia, que deveria ser a recompensa por uma vida de felicidade, imposta por um homem cínico, sem coração. Bem, Isabella não era uma mocinha inglesa chorona, temerosa de lutar por si mesma, ou de enfrentar o mundo. Antes enfrentar um pelotão de fuzilamento a suportar outra noite como aquela! Era perfeitamente capaz de viver sem luxo, se fosse esse o preço a pagar.
Olhou em volta, tentando pensar no que fazer a seguir, mas seus olhos pousaram em uma caixinha de veludo sobre a mesa-de-cabeceira. Apanhou-a e abriu-a, para então ranger os dentes em fúria, ao se deparar com o espetacular colar de diamantes que jazia em seu interior. Com cinco centímetros de largura, a jóia fora desenhada para parecer um delicado arranjo de flores, com diamantes lapidados em diversos formatos, para constituir pétalas de tulipas, rosas e orquídeas.
A ira quase a cegou, quando ergueu o colar entre dois dedos, como se segurasse entre eles uma cobra venenosa, para então largá-lo sem a menor cerimônia em uma pilha disforme.
Só então compreendeu o que a incomodara tanto nos presentes que Edward lhe dava, bem como em sua insistência em ser agradecido com beijos. Ele a estava comprando. Definitivamente, Edward acreditava que poderia comprá-la, como se ela fosse uma prostituta barata das docas. Não... nem um pouco barata. Ao contrário, extremamente cara, mas uma prostituta assim mesmo.
Depois do que acontecera na noite anterior, Isabella já se sentia usada e abusada. O colar só serviu como mais um insulto na lista crescente das ofensas cometidas por Edward. Mal podia acreditar que a deixara convencer de que ele gostava dela, que precisava dela. Edward não se importava com ninguém, não precisava de ninguém. Não queria ser amado e não possuía nenhum resquício de amor para dar. Ela deveria saber... ele deixara isso bem claro.
Homens! Isabella pensou, sentindo o rubor tomar conta de suas faces. Não passavam de monstros! Jacob, com suas falsas declarações de amor, e Edward, pensando que podia usá-la e, então, comprá-la com um colar idiota!
Encolhendo-se pela dor aguda entre as pernas, encaminhou-se até o banheiro e entrou na banheira. Trataria de obter o divórcio. Já ouvira falar disso e comunicaria Edward de sua decisão quanto antes.
Emily entrou no quarto quando Isabella saía do banho.
Os lábios da criada curvaram-se em um sorriso maroto, enquanto ela olhava em volta. O que quer que esperasse encontrar, certamente não era a patroa já de pé e banhada, envolta por uma toalha, escovando os cabelos com vigor. Nem esperava ouvir a nova esposa de lorde Cullen, cuja fama era de amante irresistível, declarar com voz gelada:
– Não precisa andar na ponta dos pés, como se tivesse medo da própria sombra, Emily. O monstro está no quarto ao lado. – Percebendo a confusão no semblante da criada, Isabella desculpou-se: – Sinto muito se a assustei, Emily. Acho que estou muito cansada.
Por alguma razão, o comentário fez Emily corar e soltar uma risadinha idiota, o que irritou Isabella, que já se encontrava à beira da histeria, apesar de seus esforços em repetir para si mesma que era uma pessoa fria, lógica e determinada. Esperou, tamborilando os dedos na penteadeira, até Emily terminar a arrumação do quarto. Quando o relógio marcou onze horas, ela se encaminhou para a porta pela qual Edward entrara na noite anterior. Pousou a mão no trinco e respirou fundo, tentando se recompor. Embora seu corpo inteiro tremesse diante da idéia de confrontá-lo e pedir o divórcio, era exatamente o que ela pretendia fazer, sem permitir que nada a impedisse. Assim que informasse Edward de que o casamento estava cancelado, ele não teria nenhum direito marital sobre ela. Mais tarde, Isabella decidiria para onde ir e o que fazer. Por enquanto, sua prioridade era fazê-lo concordar com o divórcio. Ou seria necessário obter a permissão dele? Como não tinha certeza, concluiu que o melhor seria não irritá-lo desnecessariamente, arriscando-se a provocar sua recusa. Por outro lado, também não deveria hesitar mais.
Isabella endireitou os ombros, apertou o nó que prendia seu robe de veludo, girou o trinco e entrou no quarto de Edward.
Reprimindo o desejo de atingi-lo com a bacia de porcelana que se encontrava sobre a penteadeira, cumprimentou-o com civilidade.
– Bom dia.
Os olhos de Edward se abriram com expressão alerta. Então, ele sorriu. O sorriso radiante e sensual que, antes, poderia ter derretido o coração de Isabella, a fez ranger os dentes de raiva, mas ela conseguiu, com esforço, se manter impassível.
– Bom dia – Edward respondeu com voz sonolenta, os olhos passeando pelo corpo curvilíneo escondido pelo robe macio.
Ao se lembrar da maneira como a tratara na noite anterior, procurou desviar o olhar do decote profundo e mover o corpo, a fim de abrir espaço a seu lado, na cama. Profundamente tocado pelo fato de ela ter se dado ao trabalho de ir lhe desejar bom-dia, quando tinha todo o direito de desprezá-lo, deu um tapinha no espaço vazio.
– Não quer se sentar?
Isabella estava tão concentrada em encontrar um meio de fazer o que precisava fazer da melhor maneira possível, que aceitou o convite sem pensar.
– Obrigada – agradeceu.
– Por quê? – Edward perguntou em tom de provocação.
Era exatamente a abertura que ela esperava.
– Obrigada por tudo. Em muitos aspectos, tem sido extremamente generoso comigo. Sei quanto o desagradou a minha chegada, há alguns meses, mas mesmo não me querendo aqui, você me deixou ficar. Comprou-me roupas bonitas e me levou a festas, o que foi muito gentil de sua parte. Também duelou por minha causa, o que foi absolutamente desnecessário, mas muito galante assim mesmo. Casou-se comigo na igreja, o que não desejava fazer, e providenciou uma festa maravilhosa, convidando pessoas que nem sequer conhecia, só para me agradar. Obrigada por tudo isso.
Edward ergueu a mão e acariciou-lhe a face.
– De nada – murmurou.
– Agora, quero o divórcio.
A mão de Edward imobilizou-se no ar.
– Quer o quê? – ele indagou em um sussurro ameaçador.
– Quero o divórcio – Isabella repetiu com fingida calma.
– Simples, assim? – Edward inquiriu com voz assustadoramente aveludada. Embora estivesse mais do que disposto a admitir que a tratara muito mal na noite anterior, não havia esperado por nada parecido ao que estava acontecendo. – Depois de um dia de casada, você quer o divórcio?
Bastou um olhar para a ira que já obscurecia os olhos verdes que a haviam cativado um dia, para Isabella se pôr de pé de um pulo, apenas para ser agarrada pelo braço e forçada a se sentar de novo.
– Não se atreva a me machucar, Edward! – advertiu-o.
Edward, que na noite anterior deixara no quarto ao lado uma criança ferida e magoada, viu-se subitamente confrontado por uma megera fria e encolerizada. Em vez de se desculpar, como havia planejado, falou entre os dentes:
– Você enlouqueceu! A Inglaterra só viu meia dúzia de divórcios até hoje e o nosso não fará parte desta lista.
Isabella libertou o braço dos dedos fortes de Edward, usando para isso um gesto violento. Em seguida, voltou a se pôr de pé, fora do alcance dele.
– Você é um animal! – acusou-o. – Não enlouqueci, nem serei tratada como animal outra vez!
Voltou para o seu quarto, bateu a porta atrás de si e, então, passou a chave no trinco.
Dera alguns passos, quando a porta se abriu atrás dela, com um estrondo ensurdecedor, ao mesmo tempo em que dobradiças e parafusos voavam pelo quarto.
Pálido de raiva, Edward apareceu, emoldurado pelos batentes e sibilou:
– Nunca mais tranque uma porta para mim, enquanto viver! E jamais me fale de divórcio outra vez! Esta casa é minha propriedade, aos olhos da lei, assim como você também é minha propriedade. Compreendeu?
Isabella assentiu, sobressaltada, encolhendo-se diante da fúria cega que obscurecia os olhos de Edward. Ele girou nos calcanhares e saiu do quarto, deixando-a trêmula de medo. Ela jamais testemunhara reação tão violenta em um ser humano. Edward não era um animal. Era um monstro enlouquecido.
Esperou, ouvindo as gavetas dele se abrirem e fecharem ruidosamente enquanto ele se vestia, tentando desesperadamente pensar em uma maneira de fugir ao pesadelo em que sua vida havia se transformado. Quando ouviu a porta do quarto de Edward bater e se certificou de que ele descera, Isabella foi se sentar em sua cama. Ficou ali por quase uma hora, pensando, mas descobriu que não havia para onde fugir. Caíra em uma armadilha e estava presa nela pelo resto de sua vida. Edward dissera a verdade: Isabella era sua propriedade, assim como a casa e os cavalos.
Se não concordasse em lhe dar o divórcio, como ela poderia obter a separação? Embora não soubesse ao certo se possuía um motivo justificado para convencer um juiz a lhe conceder o divórcio, tinha certeza de que jamais poderia explicar a outro homem o que Edward fizera, na noite anterior, para levá-la a desejar terminar com o casamento.
Estivera sonhando com o impossível, ao conceber a idéia de divórcio. Com um suspiro, admitiu tratar-se de uma solução extremamente radical. Seria prisioneira daquele pesadelo até dar a Edward o filho que ele queria. Então, estaria presa a Wakefield pela existência da mesma criança que deveria representar sua liberdade, pois Isabella sabia que jamais seria capaz de abandonar seu próprio filho.
Lançou um olhar desolado pelo quarto. Teria de encontrar um meio de se adaptar a sua nova vida, tornando-a o melhor possível, até que o destino se encarregasse de intervir em seu auxílio. Enquanto isso, teria de lutar para manter a sanidade, decidiu, à medida que uma calma submissa a envolvia. Poderia passar seu tempo na companhia de outras pessoas, sair de casa e se dedicar a seus próprios passatempos e ocupações. Teria de encontrar atividades agradáveis que a distraíssem de seus problemas. E deveria começar imediatamente. Detestava a autopiedade e não se entregaria a ela.
Já fizera amigos na Inglaterra. Em breve, teria um filho a quem amar e que a amaria também. Faria o melhor possível para preencher sua vida vazia com o que pudesse realizar para se manter ocupada.
Afastou os cabelos do rosto e se levantou, determinada a fazer isso. Mesmo assim, seus ombros vergaram quando ela tocou a sineta para chamar Emily. Por que Edward a desprezava tanto?, Perguntou-se, arrasada. Precisava tanto de alguém para conversar e fazer confidências. Antes, contara sempre com o pai, a mãe e Jacob para ouvi-la e lhe dar opiniões. Conversar era sempre uma grande ajuda na solução de qualquer tipo de problemas. Porém, desde que chegara à Inglaterra, não tivera ninguém. A saúde de Carlisle era fraca e, por isso, Isabella era forçada a exibir força e tranqüilidade, quando estava na companhia dele. Além disso, Edward era sobrinho dele e ela não poderia nem sequer pensar em discutir os seus defeitos com o próprio tio. Rosalie era uma boa amiga, mas estava em Londres, agora, e Isabella duvidava de que ela fosse capaz de compreender Edward, mesmo que se esforçasse para isso.
Não lhe restava nada a fazer, além de guardar seus sentimentos para si mesma e fingir estar alegre e confiante, até o dia em que pudesse se sentir assim, de verdade. Chegaria o dia em que ela seria capaz de olhar para Edward sem sentir nada, nem medo, nem mágoa, ou humilhação. Esse dia chegaria, ah, sim, chegaria! Assim que ela concebesse uma criança, ele a deixaria em paz. Agora, só lhe restava rezar para que isso acontecesse logo.
– Emily, por favor, peça a um dos cavalariços para atrelar um cavalo à menor carruagem que temos – falou, quando viu a criada entrar. – E peça que o cavalo mais manso seja escolhido, pois não estou habituada a dirigir carruagens. Depois disso, peça à senhora Craddock que embrulhe vários pacotes com os restos da comida da festa de ontem, para que eu possa levá-los comigo.
– Mas, milady – Emily protestou, hesitante —, dê uma olhada pela janela. Está muito frio lá fora, e uma tempestade se aproxima.
Isabella olhou pela janela, para o céu coberto de nuvens cor de chumbo.
– Não me parece que a chuva vá começar tão cedo – concluiu, um tanto desesperada. – Quero sair dentro de meia hora. Lorde Cullen saiu, ou está no escritório?
– Ele saiu, milady.
– Sabe dizer se ele deixou a propriedade, ou se está por perto da casa? – Isabella perguntou, sem conseguir esconder a ansiedade.
Apesar da determinação de pensar em Edward como sendo um estranho e tratá-lo da mesma maneira, não lhe agradava a idéia de confrontá-lo de novo, quando ainda se sentia tão vulnerável. Além disso, estava certa de que ele ordenaria que ficasse em casa. Edward jamais permitiria que ela saísse, sabendo que uma tempestade poderia cair a qualquer momento. E a verdade era que Isabella precisava desesperadamente passar algum tempo longe daquela casa.
– Lorde Cullen mandou selar o cavalo e saiu, dizendo que tinha algumas visitas de negócios para fazer – Emily informou. – Eu mesma o vi atravessar os portões a galope.
Quando Isabella desceu, a pequena carruagem a esperava diante da porta, carregada com pacotes de comida.
– O que devo dizer ao lorde? – Amun indagou, aflito por não ter conseguido dissuadi-la de sair, apesar do temporal que se aproximava.
Isabella virou-se para que ele pusesse a capa em seus ombros.
– Diga-lhe que eu disse adeus – respondeu, evasiva.
Deu a volta na casa para soltar Wolf e voltou, seguida por ele. Um cavalariço a ajudou a subir na carruagem. Em seguida, Wolf ocupou o lugar a seu lado, parecendo muito feliz por se ver sem as correntes. Isabella sorriu e afagou-lhe os pêlos macios.
– Está livre, afinal – murmurou para o animal. – assim como eu.
Isabella agitou as rédeas com segurança maior que de fato sentia.
– Calma – falou alto, quando a égua se lançou para a frente, com velocidade.
Ao que parecia, Edward não acreditava que cavalos mansos poderiam fazer um bom trabalho, puxando suas carruagens. O cavalariço garantira a Isabella que havia escolhido o animal mais manso do estábulo e, ainda assim, a égua era extremamente difícil de controlar. Empinou e dançou de um lado para outro, até Isabella sentir as mãos em brasa, na tentativa de forçá-la a um trote suave.
Quando Isabella se aproximava da vila, o vento começou a soprar com violência, ao mesmo tempo em que raios iluminavam o céu, já quase tão negro quanto à noite. Poucos minutos depois, a chuva forte teve início, batendo em seu rosto, dificultando-lhe a visão e encharcando-lhe a capa.
Estreitando os olhos na tentativa de enxergar a estrada a sua frente, Isabella afastou os cabelos molhados do rosto e estremeceu. Nunca fora ao orfanato antes, mas o capitão Farrell havia lhe explicado como chegar lá, assim como chegar à casa dele, perto do local. Avistou uma estrada que se parecia com aquela descrita pelo capitão, saindo de uma bifurcação a sua esquerda. Puxou a rédea naquela direção, sem saber ao certo se estava se dirigindo ao orfanato, ou para a residência de Farrell. No momento, tanto fazia, desde que pudesse se abrigar da chuva torrencial. A estrada fez uma curva, iniciando a seguir uma subida que adentrava os bosques. Mais à frente, tornava-se quase tão estreita quanto uma trilha, que rapidamente se transformava em um lamaçal.
A lama aderia às rodas da carruagem e a égua tinha de fazer grande esforço para dar cada passo. Um pouco adiante, Isabella avistou uma luz entre as árvores. Aliviada, levou a carruagem até o abrigo proporcionado por alguns velhos carvalhos. Quando mais um raio iluminou o céu, ela constatou que a luz pertencia a um chalé de tamanho suficiente para abrigar uma família, mas jamais para servir de sede de um orfanato. Um trovão ensurdecedor explodiu, assustando a égua, que voltou a empinar. Isabella saltou depressa para o chão e, segurando o animal pelo cabresto, tentou acalmá-lo, antes de amarrá-lo a um tronco.
Com Wolf a seu lado, alerta e protetor, Isabella subiu os degraus do chalé e bateu na porta.
Segundos depois, o capitão Farrell abriu a porta, o rosto iluminado pelo fogo da lareira.
– Lady Cullen! – exclamou, surpreso, puxando-a para dentro.
As presas de Wolf à mostra, bem como seu rosnado furioso o imobilizaram.
– Quieto, Wolf! – Isabella ordenou, e o animal obedeceu de pronto.
Sem tirar os olhos do animal feroz, Farrell fechou a porta.
– Que diabo está fazendo por aqui, com esse tempo? – perguntou, preocupado.
– Nad... nadando – Isabella tentou brincar, mas seus dentes batiam uns contra os outros e seu corpo tremia de frio.
O capitão tirou a capa de seus ombros e pendurou-a sobre o encosto de uma cadeira, diante da lareira.
– Precisa livrar-se dessas roupas molhadas, ou vai acabar doente! Esse animal vai permitir que você saia de suas vistas por tempo suficiente para trocar de roupa?
Isabella passou os braços em torno do corpo e lançou um olhar firme para o chão.
– Fique onde está, Wolf!
Wolf sentou-se diante da lareira, apoiou o focinho nas patas e manteve os olhos fixos na porta pela qual Isabella e Farrell desapareciam.
– Vou colocar mais lenha na lareira – o capitão informou, depois de entregar a Isabella uma muda de suas próprias roupas. – É o melhor que posso oferecer e não me venha com bobagens sobre não ser apropriado vestir roupas masculinas, minha jovem. Use a água daquela jarra para se limpar, vista minhas roupas e, então, embrulhe-se naquele cobertor. Quando estiver pronta, junte-se a mim, perto do fogo. Se está preocupada por achar que Edward não aprovaria o fato de você usar minha roupas, fique tranqüila. Eu o conheço desde que era garoto.
Isabella logo se pôs na defensiva.
– Não estou nem um pouco preocupada com o que Edward vai pensar – declarou, incapaz de esconder a rebelião que se travava em seu peito. – Não tenho a menor intenção de morrer congelada para agradar a ele. Ou a mais ninguém – acrescentou depressa ao se dar conta de que estava deixando o capitão perceber a sua revolta.
Ele a fitou com olhar estranho, mas limitou-se a comentar:
– Muito bem. Trata-se de um modo bastante sensato de pensar.
– Se eu fosse sensata, teria ficado em casa hoje – Isabella corrigiu-o com um sorriso, tentando esconder sua infelicidade.
Quando ela saiu do quarto, o capitão Farrell já havia levado a égua para o estábulo, colocado mais lenha na lareira e preparado uma xícara de chá. Estendeu-lhe uma toalha.
– Use isso para secar os cabelos – ordenou com gentileza, indicando a poltrona diante da lareira, onde ela deveria se sentar. – Importa-se se eu fumar?
– De maneira alguma.
Depois de encher o cachimbo de fumo, ele o acendeu e sentou-se diante de Isabella, estudando-a com olhar franco e, por isso mesmo, desconcertante.
– Por que não fez isso? – finalmente perguntou.
– Isso, o quê?
– Por que não ficou em casa, hoje?
Perguntando-se se parecia tão culpada e infeliz quanto se sentia, Isabella deu de ombros.
– Queria levar comida ao orfanato. Sobrou muita coisa da festa de ontem.
– Era evidente que iria chover. Você poderia ter mandado um criado levar a comida ao orfanato, que fica menos de dois quilômetros adiante daqui. Mesmo assim, preferiu enfrentar o mau tempo e tentar encontrar o lugar sozinha.
– Eu precisava... queria sair um pouco de casa.
– Estou surpreso que Edward não tenha insistido para que você ficasse em casa.
– Não julguei necessário pedir a permissão dele.
– Ele deve estar muito preocupado, agora.
– Duvido que ele se dê conta da minha ausência.
Ou que ele se importasse, quando descobrisse, Isabella pensou, infeliz.
– Lady Cullen?
Algo no modo como Farrell se dirigiu a ela a fez pensar que não gostaria de continuar aquela conversa. Ao mesmo tempo, sabia que não tinha escolha.
– O que é, capitão?
– Vi Edward pela manhã.
O desconforto de Isabella cresceu, pois ocorreu-lhe que Edward fora procurar o amigo para falar dela. De repente, parecia que o mundo inteiro se voltara contra ela.
– Viu?
– Edward é dono de uma grande frota de navios. Tenho o mando de um deles e Edward queria saber sobre o sucesso da minha última viagem.
Isabella aproveitou a oportunidade para desviar a conversa de si mesma.
– Eu não sabia que lorde Cullen entendia de navios – declarou com um sorriso tolo.
– Estranho.
– Por quê?
– Talvez eu seja muito simples e antiquado, mas acho bastante estranho a mulher não saber que seu marido passou a maior parte de sua vida a bordo de um navio.
Isabella fitou-o, boquiaberta. Até onde sabia, Edward era um lorde inglês, um aristocrata arrogante, rico e mimado. A única coisa que o distinguia dos demais homens da nobreza era o fato de ele passar a maior parte de seu tempo trabalhando em seu escritório, quando a maioria dos nobres que Isabella conhecera em Londres pareciam passar o tempo todo buscando apenas prazer e diversão.
– Talvez, simplesmente não esteja interessada na vida de seu marido – o capitão sugeriu com frieza. – Por que se casou com ele?
Isabella arregalou os olhos, sentindo-se como um coelhinho preso em uma armadilha, sentimento que já começava a fazer parte de sua rotina e que feria cada vez mais o seu orgulho. Ergueu a cabeça e encarou o capitão, sem esconder seu ressentimento. Então, com toda a dignidade que foi capaz de reunir, respondeu, evasiva :
– Casei-me com lorde Cullen pela razões habituais.
– Dinheiro, poder e posição social – Farrell resumiu com desgosto. – Bem, agora você tem a três coisas. Parabéns.
Aquele ataque gratuito foi demais para Isabella suportar. Lágrimas de fúria molharam seu rosto, ao mesmo tempo em que ela se pôs de pé, agarrada ao cobertor que a envolvia.
– Capitão Farrell, não estou molhada o bastante, nem infeliz o bastante, ou desesperada o bastante para ficar aqui sentada, ouvindo o senhor me acusar de ser uma mercenária egoísta e...
– Por que não? Afinal, é o que você é. Ou não?
– Não me importa o que pensa de mim. Eu...
Isabella se viu incapaz de falar, pois um nó apertava-lhe a garganta. Assim, encaminhou-se para o quarto, onde pretendia vestir suas roupas molhadas e ir embora. Porém, em uma fração de segundo, Farrell encontrava-se de pé, bloqueando a porta, fitando-a com olhar furioso.
– Por que quer o divórcio? – ele inquiriu de súbito, embora suas feições se suavizassem ao encará-la.
Mesmo embrulhada em um cobertor, Isabella Swan era uma visão adorável, com seus cabelos cor de mogno e magníficos olhos chocolates faiscando de ressentimento. Ela possuía muita coragem, mas as lágrimas que faziam seus olhos brilharem naquele momento mostravam que ela estava prestes a explodir em sua infelicidade.
– Esta manhã – ele continuou —, perguntei a Edward, por brincadeira, se você já o tinha abandonado. Ele respondeu que não, mas que você havia pedido o divórcio. Pensei que ele estivesse brincando, mas quando você chegou aqui, não me pareceu a mais feliz das noivas.
Desesperada, Isabella sustentou o olhar do capitão, lutando para conter as lágrimas.
– Quer, por favor, sair da minha frente?
Em vez de obedecer, ele a segurou pelos ombros.
– Acho que tem tudo o que queria de Edward, o dinheiro, o poder e a posição social, por que quer o divórcio? – ele persistiu, implacável.
– Eu não tenho nada! – Isabella explodiu. – Agora, solte-me!
– Não até que eu entenda como pude me enganar tanto a seu respeito. Ontem, quando falou comigo, achei você maravilhosa. Vi a alegria em seus olhos e o modo como tratou os camponeses. Pensei que era uma mulher de verdade, dona de um grande coração e de muita coragem, e não uma covarde mimada e mercenária!
As lágrimas toldaram a visão de Isabella diante das acusações tão injustas de um estranho tão amigo de Edward.
– Deixe-me em paz! – falou com o que lhe restava de voz, tentando empurrá-lo.
Para sua surpresa, os braços dele a envolveram e Farrell aconchegou-a de encontro a seu peito largo.
– Chore, Isabella! Pelo amor de Deus, chore, mulher! Dê vazão às lágrimas, criança. Se tentar conter toda a angústia que está sentindo, vai explodir.
Isabella aprendera a lidar com tragédias e adversidades. Porém, não sabia como enfrentar a gentileza e a compreensão. As lágrimas vieram em uma torrente, acompanhadas por soluços que sacudiram seu corpo com violência. Não saberia dizer quando o capitão a fizera sentar-se no sofá em frente à lareira, nem quando começara a contar a ele sobre a morte de seus pais e a cadeia de eventos que haviam culminado com a fria proposta de casamento de Edward, com o rosto enterrado no ombro dele, respondeu-lhe às perguntas sobre Edward e por que ela havia se casado com ele. E, ao terminar, sentia-se muito melhor do que se sentira em muitas semanas.
– Então – ele concluiu com um sorriso de admiração —, apesar da proposta fria de Edward, apesar de você não saber nada sobre ele, acreditou assim mesmo que ele precisava de você?
Embaraçada, Isabella secou as lágrimas com as mãos e balançou a cabeça.
– É óbvio que fui tola e fantasiosa ao pensar assim, mas havia momentos em que ele parecia tão sozinho... momentos em eu o observava nos bailes, cercado de gente, especialmente de mulheres e tinha a estranha sensação de que Edward se sentia tão solitário quanto eu. E tio Carlisle também disse que Edward precisava de mim. Mas nós dois nos enganamos. Edward só quer um filho. Não precisa de mim, nem me quer.
– Não é verdade – Farrell afirmou, convicto. – Edward precisa de uma mulher como você desde o dia em que nasceu. Precisa que você cure feridas mais profundas, que o ensine a amar e ser amado. Se soubesse mais sobre ele, compreenderia o que estou dizendo.
Levantando-se, o capitão apanhou uma garrafa, encheu dois copos com ele e estendeu um para Isabella.
– Vai me falar sobre Edward? – ela perguntou, cheia de esperança.
– Vou.
Isabella olhou o seu copo de uísque e começou a estender o braço para colocá-lo sobre a mesa.
– Se quer mesmo ouvir a história de Edward, sugiro que beba isso. Vai precisar.
Notando a seriedade e amargura na voz do capitão, ela tomou um gole, então, observou-o beber tudo de uma só vez, como se ele também fosse precisar do efeitos da bebida forte.
– Vou lhe contar coisas sobre Edward que somente eu sei. Coisas que ele, obviamente, não quer que você saiba, ou já teria lhe contado ele mesmo. Ao lhe contar essas coisas, estarei traindo a confiança de Edward e, até hoje, sou uma das pouquíssimas pessoas que não o traíram, de um modo ou de outro. Ele é como um filho para mim, Isabella, e me dói muito fazer isso, mas sinto que é imperativo que você o compreenda.
Isabella sacudiu a cabeça devagar.
– Talvez o senhor não deva me contar nada, capitão. Edward e eu não conseguimos nos entender, mas eu detestaria ver um de vocês dois magoados pelas coisas que tem a me contar.
– Se eu suspeitasse que você poderia usar o que vou lhe contar como arma contra Edward, guardaria segredo. Mas sei que não vai fazer isso. Você possui coragem, compaixão e generosidade. Vi isso no modo como se relacionou com os camponeses ontem à noite. Quando vi você rir com eles, deixá-los à vontade, concluí que é uma mulher maravilhosa... a esposa perfeita para Edward. E estou convencido disso.
Ele respirou fundo e começou sua história.
– Vi seu marido pela primeira vez em Delhi. Foi há alguns anos, quando eu trabalhava para um rico comerciante de Delhi, chamado Aro Napal, que transportava produtos da Índia para o resto do mundo. Napal era dono não só dos produtos que transportava e vendia, mas também dos quatro navios que os levavam pelos mares. Eu era contramestre em um desses navios. Havia passado seis meses em uma viagem excepcionalmente lucrativa e, quando retornei ao porto, Napal convidou a mim e ao capitão para uma pequena comemoração em sua casa. O clima na Índia é sempre quente, mas aquele dia parecia mais quente do que nunca, especialmente quando me perdi, tentando encontrar a casa de Napal. Acabei em um labirinto de ruelas estreitas e, depois que finalmente consegui sair dele, estava em uma pequena praça repleta de indianos imundos, vestidos de trapos. A pobreza lá vai além da imaginação. Bem, olhei a minha volta, na esperança de encontrar alguém que falasse inglês ou francês e que pudesse me explicar como chegar ao meu destino. Vi uma pequena multidão reunida a um canto da praça, assistindo a alguma atração. Eu não podia ver o que era, mas fui até lá. Estavam parados do lado de fora de uma construção, observando o que acontecia lá dentro. Eu já ia me afastando, quando percebi uma cruz de madeira pregada acima da entrada do edifício. Acreditando ser uma igreja, onde eu poderia me comunicar com alguém na minha própria língua, abri caminho por entre a multidão e entrei. Enquanto me encaminhava para o fundo com dificuldade, ouvi uma mulher gritando como fanática, em inglês, coisas sobre perdição e a ira do Todo-Poderoso. Finalmente, cheguei a um ponto de onde conseguia vê-la. E lá estava ela, sobre o palanque de madeira, com um garotinho a seu lado. Ela apontava para o menino e gritava que ele era o demônio. Acusou-o de ser a "semente da perdição" e o "produto do mal". Então, agarrou os cabelos do menino e ergueu-lhe a cabeça. E eu vi seu rosto. Fiquei chocado ao descobrir que se tratava de um garoto branco, e não de um indiano. Ela gritou: "Olhem para o demônio e vejam a vingança de Deus". Então, forçou o menino a dar meia-volta, para exibir a "vingança de Deus". Quando vi as costas dele, pensei que fosse vomitar.
O capitão fez uma breve pausa e respirou fundo, como se precisasse de forças para continuar.
– Isabella, as costas do garotinho estavam cobertas pelos hematomas provocados pela última surra, além de exibirem as cicatrizes de... só Deus sabe quantas outras. Ao que parecia, ela acabara de surrá-lo diante de sua "congregação". Os indianos não se opõem a esse tipo de crueldade bárbara.
As feições do capitão se contorceram à medida que ele continuou:
– Enquanto eu assistia àquele espetáculo horrendo, aquela demente ordenou ao garotinho que se ajoelhasse e rezasse pelo perdão do Senhor. Ele a fitou nos olhos, sem dizer nada, mas não se moveu. Ela baixou seu chicote com força suficiente para pôr um homem adulto de joelhos. A criança caiu. "Reze, demônio", ela gritou, voltando a açoitá-lo. O menino não disse nada e se limitou a olhar para frente. Foi quando vi seus olhos... Seus olhos estavam secos. Não havia uma única lágrima neles. Mas havia dor... Deus, quanta dor!
Isabella estremeceu de piedade pela criança desconhecida, perguntando-se por que o capitão estava lhe contando aquela história medonha, antes de lhe falar sobre Edward.
– Nunca vou me esquecer do tormento que vi nos olhos daquele menino – ele murmurou com voz rouca —, nem de quanto eles me pareceram verdes naquele momento.
O copo de Isabella caiu ao chão em uma explosão de cacos. Então, ela sacudiu a cabeça, desesperada, tentando negar o que acabara de ouvir.
– Não! – gritou, angustiada. – Ah, por favor, não...
Aparentemente não percebendo o seu horror, o capitão continuou, os olhos fixos em um ponto da parede, perdidos nas lembranças:
– O garotinho rezou, então. Unindo as mãos diante do peito, recitou: "Ajoelho-me diante do Senhor e imploro o seu perdão". A mulher obrigou-o a rezar mais alto, muitas e muitas vezes. Quando se deu por satisfeita, forçou-o a levantar-se. Então, apontou para os indianos sujos e ordenou ao garoto que pedisse o seu perdão. Entregou-lhe uma pequena cuia. Fiquei ali, parado, observando o garoto ajoelhar-se aos pés da "congregação", beijando a bainha de suas vestes imundas e implorando o seu perdão.
– Não... – Isabella repetiu, passando os braços em torno de si mesma, tentando afastar da mente a imagem de um garotinho de cabelos bronzes e encaracolados, e olhos verdes tão familiares, sujeitado a tamanha humilhação por uma louca.
– Algo aconteceu dentro de mim – Farrell foi adiante. – Os indianos são um bando de fanáticos e nunca me interessei por seus costumes insanos. Mas, ver uma criança da minha raça, abusada daquela maneira, me deixou maluco. E, ainda havia algo naquele garotinho que parecia me obrigar a fazer alguma coisa. Apesar de sujo e subnutrido, o brilho de orgulho e desafio em seus olhos partiu meu coração. Esperei enquanto ele se ajoelhava e beijava a bainha das roupas dos indianos a minha volta, implorando-lhes o perdão, e recebendo as moedas que eles jogavam na cuia em suas mãos. Então, ele entregou a cuia à mulher e ela sorriu. Ela apanhou a cuia e sorriu para ele, dizendo que agora, ele era "bom". E continuou a exibir aquele sorriso fanático e demente. Olhei para aquela criatura obscena, parada sobre o altar improvisado, empunhando uma cruz, e tive vontade de matá-la. Porém, não sabia quanto à congregação era fiel a ela e, como não tinha a menor chance de vencê-los sozinho, perguntei a ela se me venderia o garoto. Aleguei que ele precisava de um homem que o punisse da maneira adequada.
Desviando os olhos do ponto em que os fixara na parede, Farrell finalmente olhou para Isabella, com um sorriso amargo.
– Ela o vendeu para mim pelo pagamento que eu tinha recebido por seis meses de trabalho. O marido dela havia morrido um ano antes e ela precisa do dinheiro, tanto quanto de um garotinho para surrar. Mas, enquanto eu saía dali, ela atirava o meu dinheiro para o seus fiéis, gritando algo sobre Deus mandar presentes para eles, através dela. Era uma louca. Definitivamente louca.
– Acha que a vida de Edward era melhor, antes de o pai morrer? – Isabella perguntou com um fio de voz.
– O pai de Edward continua vivo – Farrell declarou com frieza. – Edward é filho ilegítimo de Carlisle.
A sala começou a girar e Isabella teve de fechar os olhos para controlar a vertigem e a náusea.
– Faz tanto mal a você saber que casou com um bastardo? – o capitão inquiriu, interpretando mal a sua reação.
– Como pode fazer uma pergunta tão absurda? – ela explodiu, indignada.
Farrell sorriu.
– Ótimo. Não achei que fosse se importar, mas os ingleses dão excessivo valor a essas coisas.
– O que é uma grande hipocrisia, uma vez que três duques que me vêm à cabeça, no momento, são descendentes diretos de três filhos bastardos do rei Charles. Além do mais, não sou inglesa. Sou americana.
– Você é adorável.
– Por favor, conte o resto que sabe sobre Edward – Isabella pediu, com o coração já explodindo de compaixão.
– O resto não é tão importante. Levei Edward para a casa de Napal naquela mesma noite. Um dos criados de Napal limpou-o e o mandou para a sala onde estávamos. O menino não queria falar, mas quando o fez, ficou evidente que era brilhante. Contei a história a Napal. Ele ficou com pena de Edward e lhe deu emprego de... digamos, assistente. Edward não recebia dinheiro, mas tinha uma cama no escritório de Napal, roupas e comida decentes. Aprendeu a ler e escrever, demonstrando uma sede insaciável de aprender. Quando completou dezesseis anos, Edward já tinha aprendido tudo o que havia para saber sobre os negócios de Napal. Além de ser inteligente e possuir raciocínio rápido, Edward era dono de excelente tino comercial. Acho que isso foi conseqüência de ter sido obrigado a pedir esmolas com a cuia, na infância. Bem, de uma maneira ou de outra, o coração de Napal foi se amolecendo à medida que ele envelhecia. Como não tivesse filhos, começou a pensar em Edward mais como um filho do que como um funcionário mal pago, mas muito trabalhador. Edward conseguiu convencê-lo a deixá-lo navegar em um de seus navios mercantes, para poder aprender o negócio na prática. Nessa época, eu já era capitão, e Edward navegou comigo durante cinco anos.
– Ele era um bom marinheiro? – Isabella perguntou, sentindo-se orgulhosa do garotinho que se transformara em um homem tão bem-sucedido.
– O melhor. Começou como marinheiro comum, mas aprendeu navegação e tudo o mais comigo, em seu tempo livre. Napal morreu dois dias depois que retornamos de uma viagem. Estava sentando em seu escritório, quando seu coração parou. Edward tentou de tudo para ressuscitá-lo. Chegou a fazer respiração boca a boca. As pessoas que se encontravam no escritório pensaram que Edward havia enlouquecido, mas a verdade era que ele amava o velho mercador. Lamentou a morte de Napal durante muitos meses, mas não derramou nem uma lágrima sequer. Edward é incapaz de chorar. A bruxa que o criou estava convencida de que "demônios" não podem chorar, e o espancava com maior intensidade se ele o fizesse. Edward me contou isso quando tinha nove anos de idade. Bem, ao morrer, Napal deixou tudo o que possuía para Edward. Ao longo dos seis anos seguintes, Edward fez o que havia tentado convencer Napal a fazer: comprou uma frota de navios e acabou multiplicando a fortuna que o velho tinha lhe deixado.
Quando o capitão Farrell se levantou e ficou olhando fixamente para o fogo, Isabella falou:
– Edward se casou, também, não é? Fiquei sabendo somente há poucos dias.
– Ah, sim, ele se casou – o capitão confirmou com uma careta de desgosto, enquanto se servia de outra dose de uísque. – Dois anos depois da morte de Napal, Edward já era um dos homens mais ricos de Delhi. Tal distinção lhe rendeu o interesse mercenário de uma mulher bonita e imoral, chamada Tanya. O pai dela era inglês, mas vivia em Delhi, a serviço do governo. Tanya possuía beleza, nome e estilo, tudo exceto o que mais precisava: dinheiro. Casou-se com Edward pelo que ele poderia lhe dar.
– Por que Edward se casou com ela?
Marcus Farrell deu de ombros.
– Ele era mais jovem que Tanya e acho que estava fascinado pela sua beleza. E sou obrigado a admitir que Tanya tinha uma aparência que faria qualquer homem acreditar que encontraria muito calor humano em seus braços. E ela vendeu esse calor a Edward, em troca de tudo o que pudesse arrancar dele. Edward lhe deu um bocado: jóias suficientes para arrebatar uma rainha. Ela as aceitava e sorria. Tinha um rosto bonito, mas quando eu a via sorrir daquela maneira, lembrava-me da bruxa demente com a cuia de madeira.
Isabella recordou-se de Edward dando-lhe pérolas e safiras, pedindo beijos em troca. Perguntou-se se ele acreditava ser necessário comprar uma mulher para obter seu afeto.
Marcus bebeu um longo gole de uísque.
– Tanya era uma leviana, que passou a vida pulando de cama em cama, depois que se casou. O fato mais interessante foi que ela teve um ataque ao descobrir que Edward era bastardo. Eu estava na casa deles, em Delhi, quando o duque de Masen apareceu, exigindo o filho. Tanya ficou enfurecida ao descobrir que Edward era filho "ilegítimo" de Carlisle. Ao que parecia, seus princípios tinham sido ofendidos pelo conhecimento de que ela havia misturado seu sangue com o de um bastardo. Porém, não ofendia seus princípios entregar o corpo a qualquer homem da sua classe social que a convidasse para partilhar sua cama. Um código de ética um tanto estranho, não acha?
– Muito estranho! – Isabella concordou.
Farrell sorriu diante da reação de lealdade.
– Qualquer afeição que Edward tivesse por ela, quando se casaram, foi logo destruída pela vida em comum. Mas, como Tanya lhe deu um filho, ele a mantinha em alto estilo e ignorava suas aventuras amorosas. Para ser honesto, acho que ele não se importava nem um pouco com o que ela fazia.
Isabella, que não sabia que Edward tinha um filho, empertigou-se no sofá, encarando o capitão com expressão chocada, enquanto ele continuava:
– Edward adorava aquela criança. Levava-o a quase todos os lugares que ia. Até concordou em voltar para a Inglaterra e gastar fortunas na restauração das propriedades de Carlisle, para que Seth pudesse herdar um verdadeiro império. E, no final, todo aquele esforço foi para nada. Tanya fugiu com seu último amante e levou Seth consigo, na tentativa de exigir de Edward um resgate pelo filho. O navio naufragou durante uma tempestade. Fui o primeiro a descobrir que Tanya tinha levado Seth com ela. E fui eu o encarregado de contar a Edward que seu filho estava morto. Eu chorei, mas Edward, não. Nem mesmo naquele dia. Edward é incapaz de chorar.
– Capitão Farrell – Isabella chamou com voz sufocada. – Eu gostaria de voltar para casa. Está ficando tarde e Edward pode estar preocupado comigo.
O pesar abandonou o semblante do capitão, dando lugar a um sorriso.
– Boa idéia! Mas, antes que vá, quero lhe dizer uma coisa.
– O quê?
– Não permita que Edward a engane, ou a si mesmo, de que só quer um filho de você. Conheço-o melhor do que ninguém e vi o modo como ele a observava, ontem à noite. Ele já está mais que apaixonado por você, embora eu duvide que isso o agrade.
– Não posso culpá-lo por não querer amar mulher nenhuma – Isabella falou com tristeza. – Nem sei como ele sobreviveu a tudo isso e manteve a sanidade.
– Ele é forte. Edward é o ser humano mais forte que já conheci. E o melhor. Permita-se amá-lo, Isabella. Sei que é o que deseja. E trate de ensiná-lo a amar você. Edward tem muito amor para lhe dar, mas, antes disso, terá que aprender a confiar em você. Quando isso acontecer, ele vai colocar o mundo a seus pés.
Isabella se levantou.
A voz do irlandês tornou-se muito suave e seu olhar, distante.
– Porque conheci uma mulher igual a você, há muito tempo. Possuía a sua generosidade e a sua coragem. Ela me ensinou a confiar, a amar e a ser amado. Não tenho medo de morrer porque sei que ela está lá, a minha espera. A maioria dos homens ama muitas vezes, mas Edward é como eu. Vai amar uma única vez, para sempre.

[N/A Fanfic]
Adorei a Bella pedindo o divorcio! Diva essa mulher!
O que eu disse? A Bella e todas nós descobrimos o passado infeliz do nosso Lorde Malvado !
Coitado meninas, ninguém merece uma infância dessas!
Bom o que posso dizer, o Edward ainda vai aprontar, ele está lutando contra o que sente pela nossa Bellinha.
E agora a nossa anjinha vai ter um caminho longo e penoso para mostrar para o nosso Lorde Malvado que ela é diferente de todas as mulheres da vida dele.
A Bella vai seduzir esse homem, mesmo que seja da forma inocente dela. Mais garanto que vai deixá-lo louquinho kkkk.
Será que ele vai pedir pra sair? kkkk

Gente nos encontramos na quinta com um novo capitulo... 

Bjs e boa noite...


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