domingo, 2 de janeiro de 2011

Notícias de Rosalie


O telefone no meu bolso vibrou de novo. Era a vigésima quinta vez em vinte quatro horas. Eu pensei em abrir o telefone, pelo menos ver quem estava tentando me contatar. Talvez fosse importante. Talvez o Carlisle precisasse de mim.


Eu pensei sobre isso, mas não me mexi.


Eu não tinha muita certeza de onde estava. Algum sótão minúsculo e escuro, cheio de ratos e aranhas. As aranhas me ignoravam e os ratos me davam espaço. O ar estava pesado com o cheiro de óleo cozinhando, carne mofada, suor humano e a camada quase sólida de poluição que era realmente visível no ar úmido, como um filme preto sobre tudo. Abaixo de mim, quatro andares de uma pensão raquítica atrelavam, cheios de vida. Eu não me importava em separar os pensamentos das vozes – eles formavam um grande alarde de espanhol alto que eu não escutava. Eu só deixava os sons passarem por mim. Sem importância. Tudo era sem importância. Minha existência era sem importância.


Meu mundo inteiro era sem importância.


Minha testa pressionou contra meus joelhos e eu me perguntei quanto tempo ainda seria capaz de aguentar isso. Talvez fosse inútil. Talvez, se a minha tentativa já estivesse condenada ao fracasso, eu devesse parar de me torturar e voltar…


A idéia era tão poderosa, tão curativa – como se as palavras tivessem um anestésico poderoso, lavando a montanha de dor que me enterrava – que me fez engasgar, de deixou tonto.


Eu podia ir embora agora, eu podia voltar.


O rosto da Bella, sempre atrás das minhas pálpebras, sorriu para mim.


Era um sorriso de boas vindas, de perdão, mas não teve o efeito que o meu subconsciente provavelmente queria que tivesse.


É claro que eu não podia voltar. O que era a minha dor, em comparação com a felicidade dela? Ela devia ser capaz de sorrir, livre do medo e do perigo. Livre de desejar um futuro sem alma. Ela merecia coisa melhor que isso. Ela merecia coisa melhor que eu. Quando ela deixasse este mundo, ela iria para um lugar que estava proibido para sempre para mim, não importa como eu me comportasse aqui.


A idéia dessa separação final era muito mais intensa que a dor que eu já sentia. Meu corpo tremeu com ela. Quando Bella fosse para o lugar de onde ela fazia parte e eu nunca poderia fazer, eu não ficaria mais por aqui. Tinha que ter esquecimento. Tinha que ter alívio.


Essa a minha esperança, mas não havia garantia. Dormir? Sonhar, quem sabe! Ai, eis a dúvida, eu citei. Mesmo quando ela virasse pó, eu ainda sentira a sua perda?


Eu tremi novamente.


E, droga, eu tinha prometido. Eu tinha prometido a ela que não assombraria a vida dela de novo, trazendo meus demônios negros. Não quebraria minha palavra. Eu não conseguia fazer nada certo por ela? Nada mesmo?


A idéia de voltar para a cidadezinha nublada que sempre seria meu verdadeiro lar nesse planeta inundou meus pensamentos de novo.


Só para checar. Só para ver se ela estava segura e feliz. Não para interferir. Ela nunca saberia que eu estava lá…


Não. Droga, não.


O telefone vibrou outra vez.


- Droga, droga, droga – eu rosnei.


Eu podia aproveitar a distração, supus. Eu abri o telefone e registrei os números com o primeiro choque eu sentia em meio ano.


Por que a Rosalie estaria me ligando? Ela era a única pessoa que provavelmente estaria gostando da minha ausência.


Devia ter algo muito errado se ela precisava falar comigo. De repente preocupado com a minha família, eu apertei o bota para atender.


- O quê? – eu perguntei, tenso.


- Oh, nossa. Edward atendeu o telefone. Me sinto tão honrada.


Assim que eu ouvi o tom de sua voz, eu soube que a minha família estava bem. Ela só devia estar entediada. Era difícil adivinhar o motivo sem os pensamentos dela como guia. Rosalie nunca tive feito muito sentido para mim. Os impulsos dela funcionavam com o tipo mais estranho de lógica.


Eu bati o telefone.


- Me deixe em paz – eu sussurrei para ninguém.


É claro que o telefone vibrou de novo.


Ela continuaria me ligando até que conseguisse passar qualquer mensagem com a qual queria me irritar? Provavelmente. Levaria meses até que ela se cansasse desse jogo. Eu brinquei com a idéia de deixá-la apertar o “redial” pelos próximos seis meses… e então suspirei e atendi o telefone de novo.


- Fale logo.


Rosalie se apressou pelas palavras. – Eu imaginei que você gostaria de saber que a Alice está em Forks.


Eu abri os olhos e encarei as vigas de madeira, a sete centímetros do meu rosto.


- O quê? – Minha voz estava vazia, sem emoção.


- Você sabe como a Alice é – pensa que sabe tudo. Igual a você – Rosalie riu sem humor. A voz dela tinha um tom nervoso, como se de repente ela estivesse incerta sobre o que estava fazendo.


Mas a minha raiva tornou difícil me preocupar com qual era o problema da Rosalie.


Alice tinha jurado para mim que ela faria o que eu tinha pedido em relação a Bella, embora ela não concordasse com a minha decisão. Ela tinha prometido que deixaria a Bella em paz… enquanto eu deixasse. Certamente, ela achava que eu eventualmente cederia à dor. Talvez ela estivesse certa sobre isso.


Mas eu não tinha cedido. Ainda. Então o que ela estava fazendo em Forks? Eu quis torcer o pescocinho magro dela. Não que o Jasper me deixaria chegar assim tão perto dela, uma vez que ele pegasse um sopro da fúria que saia de mim…


- Você ainda está aí, Edward?


Eu não respondi. Eu apertei o meu nariz com as pontas dos dedos, imaginando se era possível um vampiro ter dor de cabeça.


Por outro lado, se a Alice já tinha voltado…


Não. Não. Não. Não.


Eu tinha feito uma promessa. Bella merecia uma vida. Eu tinha feito uma promessa. Bella merecia uma vida.


Eu repeti as palavras como um mantra, tentando limpar a minha cabeça da sedutora imagem da janela escura da Bella. A entrada pra o meu único santuário.


Sem duvida eu teria que rastejar se eu voltasse. Não me importava com isso. Eu passaria feliz a próxima década de joelhos, se eu estivesse com ela.


Não, não, não.


- Edward? Você não quer saber por que a Alice está lá?


- Não estou muito interessado.


A voz da Rosalie ficou presunçosa agora, satisfeita, sem dúvida, que ela tinha forçado uma resposta minha. – Bem, é claro, ela não está exatamente quebrando as regras. Quero dizer, você só nos advertiu para ficar longe da Bella. O resto de Forks não importa.


Eu pisquei os olhos lentamente. Bella tinha ido embora? Meus pensamentos circularam pela idéia inesperada. Ela ainda não tinha se formado, então ela devia ter voltado para a mãe. Isso era bom. Ela devia morar à luz do sol. Era bom que ela tinha sido capaz de deixar as sombras para trás.


Eu tentei engolir, mas não consegui.


Rosalie trinou uma risada nervosa. – Então você não precisa ficar bravo com a Alice.


- Então por que você me ligou, Rosalie, se não é pra entregar a Alice? Por que você está me incomodando? Argh!


- Espera! – ela disse, sentindo, com razão, que eu ia desligar de novo. – Não foi por isso que eu liguei.


- Então por quê? Me diz logo, e me deixe em paz.


- Bem… – ela hesitou.


- Fala de uma vez, Rosalie. Você tem dez segundos.


- Eu acho que você deve voltar para casa – Rosalie disse depressa. – Estou cansada da Esme de luto e do Carlisle nunca rindo. Você devia se envergonhar do que você fez com eles. Emmett sente a sua falta toda a hora e já está me irritando. Você tem uma família. Cresça e pense em alguém além de si mesmo.


- Que conselho interessante, Rosalie. Deixe-me contar uma historinha sobre o sujo e o mal lavado…


- Eu estou pensando neles, ao contrario de você. Não se importa com o quanto você magoou a Esme, mais que todos? Ela ama você mais do que o resto de nós, e você sabe disso. Venha para casa.


Eu não respondi.


- Eu pensei que uma vez que essa coisa toda de Forks tivesse terminado, você iria superar.


- Forks nunca foi o problema, Rosalie – eu disse, tentando ser paciente. O que ela tinha dito sobre Esme e Carlisle pegou em meu ponto fraco. – Só porque a Bella – era difícil dizer o nome dela em voz alta – se mudou para a Florida, não quer dizer que eu seja capaz… Olha, Rosalie. Eu sinto muito mesmo, mas, acredite, não faria ninguém mais feliz se eu tivesse aí.


- Hm…


Ali estava, a hesitação nervosa outra vez.


- O que é que você não está me contando, Rosalie? Esme está bem? O Carlisle -


- Eles estão bem. É só… bem, eu não disse que a Bella tinha se mudado.


Eu não falei. Passei por nossa conversa na minha cabeça. Sim, Rosalie tinha dito que a Bella tinha se mudado. Ela tinha falado: …você só nos advertiu para ficar longe da Bella, certo? O resto de Forks não importa. E depois: eu pensei que uma vez que essa coisa toda de Forks tivesse terminado… Então a Bella não estava em Forks. O que ela quis dizer, Bella não tinha se mudado?


Então Rosalie estava se apressando pelas palavras outra vez, falando quase irritada dessa vez.


- Eles não queriam contar para você, mas eu acho que é estupidez. O mais rápido que você superar isso, mais rápido as coisas podem voltar ao normal. Por que deixar você se lamentar pelos cantos escuros do mundo quando não tem necessidade? Você pode voltar para casa agora. Nós podemos ser uma família de novo. Acabou.


- Minha mente parecia estar quebrada. Eu não conseguia entender as palavras dela. Era como se houvesse alguma coisa muito, muito óbvia que ela estava me contando, mas eu não fazia idéia do que era. Meu cérebro passava a informação, fazendo caminhos estranhos dela. Absurdos.


- Edward?


- Eu não entendo o que você está dizendo, Rosalie.


Uma longa pausa, o tempo de alguns batimentos cardíacos humanos.


- Ela está morta, Edward.


Uma pausa mais longa.


- Eu… sinto muito. Mas você tem o direito de saber, eu acho. Bella… se atirou de um penhasco dois dias atrás. Alice viu, mas era tarde demais para fazer qualquer coisa. Mas eu acho que ela teria ajudado, quebrado sua promessa, se houvesse tempo. Ela voltou para fazer o que pode por Charlie. Você sabe que ela sempre se importou com ele -


O telefone ficou silencioso. Levou alguns segundos para eu perceber que eu o tinha desligado.


Eu sentei na escuridão empoeirada por um espaço de tempo longo, congelado. Era como se o tempo tivesse terminado. Como se o universo tivesse parado.


Lentamente, me movendo como um homem velho, eu liguei meu telefone de novo e disquei o único numero que eu tinha prometido que nunca mais ia discar.


Se fosse ela, eu desligaria. Se fosse o Charlie, eu conseguiria a informação que precisava por pretextos. Eu provaria que a piada doentia da Rosalie estava errada e então voltaria para o meu nada.


- Residência dos Swan – uma voz que eu nunca tinha ouvido antes atendeu. Uma voz de homem, rouca, grave, mas ainda jovem.


Eu não parei para pensar no que isso significava.


- Aqui é o Dr. Carlisle Cullen – eu disse, imitando perfeitamente a voz do meu pai. – Posso falar com o Charlie?


- Ele não está aqui – a voz respondeu, e eu fiquei fracamente surpreso pela raiva que ela continha. As palavras eram quase um rosnado. Mas isso não importava.


- Bem, onde é que ele está então? – eu exigi, ficando impaciente.


Houve uma pequena pausa, como se o estranho quisesse reter a informação de mim.


- Ele está no funeral – o garoto finalmente respondeu.


Eu desliguei o telefone de novo.